13 de fev de 2008

Fora dos Cascos

O homem nasce, cresce e fica burro. Essa é a seqüencia correta para qualificar o desenvolvimento humano. Isso porque pode-se dizer que há mais erros de raciocínio que acertos, de modo a salientar o profundo envolvimento dos sentimentos, subestimando o uso racional ao princípio de incapacidade. Se eu amo X, então X me ama? Obviamente que não, mas eu posso esperar por isso, alimentando meu corpo de ignorância e imaturidade. Aí entra a questão a qual me refiro, já que entre a nossa raça é tão comum o mal hábito de cobrar do mundo o empenho depositado em alguma circunstância, como prova de recompensa. Desacostumei-me a atribuir insucesso a situações que não estão ao meu alcance, embora bem simples distribuir nichos de culpa a uma roda de mortais, nem por isso com justiça. Talvez o caminho para a redução de tanto sofrimento seja agir por conta da intuição, lendo corretamente aquilo que o espírito nos apetece. Costumo acreditar que fiz o que pude para que, em caso de não-correspondência, entenda tal fato como uma adversidade, que, a princípio, não certifique inaptidão ou infortúnio da vida como castigo divino. Embora a inabilidade seja uma virtude entre os burros, me esforço para lidar com o processador de que disponho.

12 de fev de 2008

O Mundo e seus Negócios

Eu quero ver é quem não se torna menos interessante a partir do instante em que se convence de sê-lo. Porque a alma despretensiosa, que exala o perfume da inocência, nutre-se exatamente da não-percepção de sua atmosfera envolvente. Não falo aqui de pobres mentes iludidas, com suas respectivas sabedorias tiradas de livros, bastante cortejadas em círculos sociais pelo seu grau de erudição, cá entre nós, possivelmente dos mais arrogantes. Mas o que seriam dos leiteiros, jardineiros e afins sem seu completo desleixo voluptuoso para consigo próprio? Ora, não haveria mais adultério. Aliás, não sei bem porque essa ligação tão generosa com os prestadores de serviços. O fato é que há fetiche e isso faz das pequenas necessidades do cotidiano um nicho de mercado muito mais produtivo em tempos de globalização. Afinal, a economia precisa girar. Basta um canteirinho com umas três folhas de hortelã e duas margaridas sorridentes de pretexto para que mais um telefonema seja feito em prol do comércio. As madames, com aspecto de finesse e inteligência mas que no fundo não são nenhum e nem outro, me causam desconfiança de seus gostos. Aquele papo de chique, moderno e polido é apenas fachada para esconder um desejo ardente de cair no gozo de um suor bem escorrido, estilo fetuticcini Al Carcioffini, com direito a rolo de esticar e tudo mais. Enquanto isso o maridão engata três dias de viagens a trabalho, bastante trabalho. Tanto trabalho que a sua secretária opera em exclusidade ao seu dispor, fazendo tudo o que ele pede. E ela faz, direitinho. Nada que não possa ser encoberto com um almoço no fim de semana com a sogra. Cartão de crédito, advogado, pensão. Ora, vamos fazer esse mundo girar.

7 de fev de 2008

Baile de Máscaras

A alegria me comove. Não sei como posso ser tão promíscuo ao ponto de me envolver tão facilmente. É que nos dias de chuva eu me molho de verdade, e me deixo à vontade, só pra ver o meu despudor se encharcar de carolices. Nem sempre é bom sorrir pra manter as aparências, embora o incômodo de se sentir excluído possa ser ainda maior. Nesse caso, recolho minha fantasia de pierrot e me alio disfarçadamente à coleção de dentes instigados a se esbaldar em samba na avenida. Ah, a alegria me comove! Sento e vejo o bloco passar com uma efusividade de dar dó ao pirata em sua caravela desbravadora, nem parece que foi exatamente naquele lugar em que foram encontradas as bolsas postiças. Ora, e não é que conseguiram fazer um canguru comprar uma dessas beldades sintéticas! Há dias em que a colombina nem comemora seus confetes, imagine pular marchinha todos os carnavais. Se não for atrevimento, gostaria de sair de casa sem me aventurar muito à majestade das cenas de enunciação, como fazem os infelizes corpos que desfilam patuás sem a devida energia do axé dos Orixás. Posso ter a força de uma tragada de charuto cubano, mas não a complacência de um soldado raso. É preciso pelo menos possuir um estado de espírito antes que a alma possa ter um status. Ah, essa alegria que emana da rua me comove! É melhor estar verdadeiramente triste que contribuir para a contaminação do falso gozo. Ah, coitada da alegria! A propósito, ia me esquecendo, estamos num baile de máscaras.