17 de set de 2007

Uma Estrada e Quatro Pés

Hoje eu prefiro deixar as paixões para as coisas. Para as pessoas, e se assim for inevitável, espero reservar sentimentos. Só para não ficar pelo meio do caminho. O “começo” da meada é insignificante quando o “meio” é envolto de agradável intuição. É a maneira diária de acompanhar o desenrolar dos fatos propriamente trilhados. Sem desmanche. Sem honraria, porque nunca se sabe quando está em voga. Tomo nota das coisas desnecessárias à memória. Anoto o que realmente não preciso fazer, não sinto prazer em cobiçar. De fato, atitudes hedonistas mascaram suas angústias na ilusão da busca incessante pelo gozo, e a felicidade, nessas horas, aparece para confundir a convicção mais acentuada do espírito libertino. Duendes até podem esconder a chave da porta, mas não o bem-estar alheio. Quando encontrar o palhaço de novo, vou dar-lhe um abraço apertado. Todo mundo pensa que ele está vestido de piadas. Porém, a maquiagem precisa de bastante pó pra esconder sua tristeza, tanto que a lágrima só parece com um desenho porque não pinga no colarinho.

13 de set de 2007

Velhos Novos Tempos

O padre falou que eu estava errado, que a hóstia era o corpo do salvador e o dízimo, um ato de grande benevolência. Achei por bem apenas ouvir. Enquanto isso, na cabeça, passava um filme dos tempos de eucaristia, da época em que fugia da missa para jogar bola.
Acordar cedo, ir pra eucaristia, gravar rezas, assistir à missa e perder a pelada era prejuízo demais para uma pobre alma de nove anos, já que o assunto era prioridade. Ainda hoje aprecio jogar pela rua. Ainda costumo comer as mesmas coisas que aprendi a gostar quando criança.
Só depois de ver o velho Nelson comentar foi que parei para prestar atenção. E não é mesmo! Se as crianças são livres e felizes mesmo sendo coagidas, imagine se o mundo lhes desse de presente boa parte da sabedoria logo a partir do primeiro berro? Meu pai, depois de analisar minuciosamente um dos primeiros exames, estava confiante. “Nossa, doutô, acho que meu filhinho vai nascer com uma baita duma lapa! Já vejo os amigos de faculdade o chamando de tripé”. Logo em seguida o ilustre corrige, “Que isso, meu caro! Isso aí que o senhor está vendo no ultrassom é só o cordão umbilical”.

9 de set de 2007

Em Memória aos Detalhes

Eu sempre tenho alguma coisa a dizer. Falo a quem nem ouve com vigor. Ou porque chegou cansado do trabalho e só quer pegar o seu prato para comer em frente à novela, ou porque nunca teve o hábito de ouvir mesmo. A pessoa vai concordando e então ficamos sem um real diálogo. Não responder é um tipo de resposta a quem admite fracasso de contato. A minha professora fala pelos ares do tal do “feed-back”. “Explica o que acontece com “inside” da gente, teacher?”. Ela até tenta. Enquanto isso eu vou ao banheiro bem devagar. Fico tentando sentir o gosto que a água não tem, só pra ver se o tempo passa logo. Ponho-me a pensar como uma coisa tão simples possa ser tão desvalorizada. É que eu não me acostumo, mas os detalhes estão fadados ao fracasso. Ser ouvido é ser acolhido, é também ser olhado. É sincronizar os olhos para ouvir melhor. Ouvir é como abraçar, o afago vem com o conforto da atenção.